sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Planeta Terra vale a pena?



Então me diz: por que que você quer voltar?
Você não tá feliz onde você está?
Observando tudo a distância
Vendo como a Terra é pequenininha
Como é grande a nossa ignorância
E como a nossa vida é mesquinha
A gente aqui no bagaço, morrendo de cansaço
De tanto lutar por algum espaço
E você, com todo esse espaço na mão
Querendo voltar aqui pro chão?!
Ah não, meu irmão... qual é a tua?
Que bicho te mordeu aí na lua?

Astronauta - Gabriel O Pensador/lulu Santos

sábado, 18 de novembro de 2017

Ao senhor Tempo que não gosta de bagunça.

UMA PEQUENINA MUDANÇA IMPREVISÍVEL E APARENTEMENTE INOFENSIVA NO INÍCIO DE UM EVENTO QUALQUER PODE TRAZER CONSEQUÊNCIAS ENORMES E ABSOLUTAMENTE DESCONHECIDAS PARA UM FUTURO

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Na escuridão Miserável

Eram sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico. Senti que alguém me observava, enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me e dei com uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar, através do vidro da janela, junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada, raquítica, um fiapo de gente, encostada ao poste como um animalzinho, não teria mais que uns sete anos. Inclinei-me sobre o banco, abaixando o vidro: 
-O que foi, minha filha? - perguntei, naturalmente pensando tratar-se de esmola.
-Nada não senhor - respondeu-me, a medo, um fio de voz infantil.
-O que é que você está me olhando aí?
-Nada não senhor - repetiu. - Esperando o bonde...
-Onde é que você mora?
-Na Praia do Pinto.
-Vou para aquele lado. Quer uma carona?
Ela vacilou, intimidada. Insisti, abrindo a porta:
-Entra aí, que eu te levo.
Acabou entrando, sentou-se na pontinha do banco, e enquanto o carro ganhava velocidade, ia olhando duro para a frente, não ousava fazer o menor movimento. Tentei puxar conversa:
-Como é o seu nome?
- Teresa.
- Quantos anos você tem, Teresa?
-Dez.
-E o que estava fazendo ali, tão longe de casa?
-A casa da minha patroa é ali.
-Patroa? Que patroa?
Pela sua resposta pude entender que trabalhava na casa de uma família no Jardim Botânico: lavava, varria a casa, servia a mesa. Entrava às sete da manhã, saía às oito da noite. 
-Hoje saí mais cedo. Foi jantarado.
-Você já jantou?
-Não. Eu almocei.
-Você não almoça todo dia?
-Quando tem comida pra levar, eu almoço: mamãe faz um embrulho de comida para mim.
-E quando não tem?
-Quando não tem, não tem - e ela até parecia sorrir, me olhando pela primeira vez. Na penumbra do carro, suas feições de criança, esquálidas, encardidas de pobreza, podiam ser as de uma velha. Eu não me continha mais de aflição, pensando nos meus filhos bem nutridos - um engasgo na garganta me afogava no que os homens experimentados chamam de sentimentalismo burguês.
-Mas não te dão comida lá? - perguntei, revoltado.
- Quando eu peço eles me dão. Mas descontam no ordenado, mamãe disse pra eu não pedir.
-E quanto você ganha?
-Mil cruzeiros.
-Por mês?
Diminuí a marcha, assombrado, quase parei o carro, tomado de indignação. Meu impulso era voltar, bater na porta da tal mulher e meter-lhe a mão na cara.
-Como é que você foi parar na casa dessa... foi parar nessa casa? - perguntei ainda, enquanto o carro,
ao fim de uma rua do Leblon, se aproximava das vielas da Praia do Pinto. Ela disparou a falar: 
-Eu estava na feira com mamãe e então a madame pediu para eu carregar as compras e aí noutro dia pediu à mamãe pra eu trabalhar na casa dela então mamãe deixou porque mamãe não pode ficar com os filhos todos sozinhos e lá em casa é sete meninos fora dois grandes que já são soldados pode parar que é aqui moço, brigado.
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto. 

Fernando Sabino
(A companheira de viagem. 4.ed. Rio de Janeiro, Record, 1977. p.135-7).

segunda-feira, 18 de setembro de 2017


"Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las... 
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!".
(Das Utopias-Mário Quintana)

Equal butterfly


Hoje senti o que há bastante tempo não sentia.
Talvez esteja me precipitando muito, a solidão faz isso...
Senti as famosas borboletas no estômago e fiquei sorrindo sem razão.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Não me deixes... viajante!



Debruçada nas águas dum regato

A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!
"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;

"Mas não me deixes, não!"



Gonçalves Dias (1823-1864)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Sobre voos e sonhos...

“Nós vivemos na superfície, no nível horizontal, e no entanto, — e por isso — nós sonhamos. Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves. Podemos nos ver batendo no chão com violência, arrastados na direção de uma estrada de ferro estrangeira. Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial. Se não a princípio, então depois. Se não para um, então para o outro. Às vezes para ambos.”

Em: Altos voos e quedas livres, Julian Barnes, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2014, pp: 44-45.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"Todas as coisas fazem sentido para mim, e o que não tiver lógica eu descubro que, lá no fundo, tem."

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Frase motivacional

Sua derrota é a alegria do inimigo. 
Nunca permita que ele fique feliz,
se ficar, que seja por um átimo de segundos!
                                      Natália Silva

quarta-feira, 19 de julho de 2017

De quem são os meninos de rua?

Hoje, vi uma reportagem onde moradores de rua estariam sendo acordados a jatos de água na manhã fria de São Paulo. Lembrei desse texto que li em uma prova. Muito bom e reflexivo, vale a pena ler.

De quem são os meninos de rua?

  Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou no
meu braço, falou qualquer coisa que não entendi. Fui
logo dizendo que não tinha, certa de que ele estava
pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber a hora.
  Talvez não fosse um Menino De Família, mas
também não era um Menino De Rua. É assim que a
gente divide. Menino De Família é aquele bem-vestido
com tênis da moda e camiseta de marca, que usa
relógio e a mãe dá outro se o dele for roubado por
um Menino De Rua. Menino De Rua é aquele que
quando a gente passa perto segura a bolsa com força
porque pensa que ele é pivete, trombadinha, ladrão.
  Ouvindo essas expressões tem-se a impressão
de que as coisas se passam muito naturalmente,
uns nascendo De Família, outros nascendo De Rua.
Como se a rua, e não uma família, não um pai e uma
mãe, ou mesmo apenas uma mãe os tivesse gerado,
sendo eles filhos diretos dos paralelepípedos e das
calçadas, diferentes, portanto, das outras crianças,
e excluídos das preocupações que temos com elas.
É por isso, talvez, que, se vemos uma criança bem-
-vestida chorando sozinha num shopping center ou
num supermercado, logo nos acercamos protetores,
perguntando se está perdida, ou precisando de alguma
coisa. Mas, se vemos uma criança maltrapilha
chorando num sinal com uma caixa de chicletes na
mão, engrenamos a primeira no carro e nos afastamos
pensando vagamente no seu abandono.
  Na verdade, não existem meninos DE rua. Existem
meninos NA rua. E toda vez que um menino está
NA rua é porque alguém o botou lá. Os meninos não
vão sozinhos aos lugares. Assim como são postos
no mundo, durante muitos anos também são postos
onde quer que estejam. Resta ver quem os põe na
rua. E por quê.
[...]
  Quem leva nossas crianças ao abandono?
Quando dizemos “crianças abandonadas”, subentendemos
que foram abandonadas pela família, pelos
pais. E, embora penalizados, circunscrevemos o problema
ao âmbito familiar, de uma família gigantesca
e generalizada, à qual não pertencemos e com a qual
não queremos nos meter. Apaziguamos assim nossa
consciência, enquanto tratamos, isso sim, de cuidar
amorosamente de nossos próprios filhos, aqueles
que “nos pertencem”.
  Mas, embora uma criança possa ser abandonada
pelos pais, ou duas ou dez crianças possam ser
abandonadas pela família, 7 milhões de crianças só
podem ser abandonadas pela coletividade. Até recentemente,
tínhamos o direito de atribuir esse abandono
ao governo, e responsabilizá-lo. Mas, em tempos
de Nova República*, quando queremos que os
cidadãos sejam o governo, já não podemos apenas
passar adiante a responsabilidade.

COLASANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo:
Ática, 2002. Adaptado.
* Nova República: termo usado à época em que a crônica foi escrita
(1986) para designar o Brasil no período após o fi m do regime militar.